Ouvindo para pesquisar moda

Algumas coisas mudaram desde o último post.

A maior delas foi a volta para o Brasil depois de uma temporada na linda – e quente! – Sicília.

Foi muito legal poder exercitar meu olhar sobre a moda e sobre alguns pontos do nosso país no exterior, porque nossa influência cultural é quase toda de fora.

***

Já em SP, tive a oportunidade há duas semanas, de fazer parte de uma equipe que faz pesquisas para uma grande fabricante de calçados nacionais. Fui até as lojas e ouvi a opinião dos consumidores sobre determinados produtos.

Para mim foi duplamente bacana: como pesquisadora e como profissional de moda.

Ouvi vários comentários interessantes que eu nem imaginava sobre o público pesquisado e sobre a percepção que eles têm/tiveram sobre os produtos.

Fiquei pensando então, em como seria bom para a moda brasileira se os profissionais de criação e estilo fossem para o mercado conversar e observar seus consumidores reais.

Eu, como profissional da área sei bem como são feitas a maioria das pesquisas de moda: basicamente atrás do computador em sites, revistas e blogs de streetstyle de fora ou indo direto na fonte: viajando para NY, Paris, Londres etc.

Essa busca é parte importante do processo de criação e será que ouvir as pessoas que vão até as lojas e os que estão todos os dias lá não seria igualmente importante?

Não se deve tentar descobrir o que o consumidor quer – porque ele quer muitas coisas – e sim tentar entender qual a relação dele com a moda e mais importante ainda, com a moda que você esta criando.

Não demanda nenhum esforço milionário e acredito que ajudaria até a se criar uma moda mais brasileira.

Explico: com essa coisa de pesquisar muitas vezes em cima de outras pesquisas, “trend reports”, a gente passa sempre a reproduzir o que foi pensado para outros mercados, climas e consumidores. Impondo e criando “desejos de moda” que não são os das pessoas que compram  nossos produtos.

Acredito que ouvindo os consumidores a gente consegue se aproximar mais do estilo de vida que eles levam,  das necessidades que a roupa tem que solucionar – e isso inclui ficar bonito, estar “na moda” – e consequentemente entregamos uma moda mais parecida com ele.

Comentários são bem vindos 😉

Abs,

Natália Tiberio

Anúncios

Popular no exterior, luxo no Brasil

Ando acompanhando pela internet a abertura de lojas “gringas” no Brasil.

Acho bacana que o país tem se tornado atrativo para grandes grupos internacionais, incluindo os de luxo.

Mas, confesso que não consigo entender porque uma loja tão popular aqui na Europa como a Sephora por exemplo, que tem uma loja em cada esquina de Paris, Londres e até aqui em Catânia(!) onde com qualquer 5 euros, você compra alguma coisa, nem que sejam esmaltes, chega no Brasil, abrindo sua primeira loja no Shopping JK Iguatemi, ao lado de marcas de luxo como Gucci e Dior.

Por que essa mudança de posicionamento? Ok, sei que a maioria dos produtos que a Sephora venderá em sua loja brasileira é de importados e que isso joga o preço de qualquer produto nas alturas, mas ainda assim, será que não seria mais interessante abrir uma loja em um local mais acessível e tentar trabalhar com alguns produtos igualmente mais acessíveis ao bolso da parcela da população que mais dispõe de dinheiro para comprar atualmente: a tão falada “nova classe média”?

Porque não venha me dizer, como fez o Sr. Jereissati aqui, que o público que irá ao JK Iguatemi é a classe média! Quando leio “luxo” e “classe média”  na mesma frase, acho que tem algo errado.

Ou será que uma pessoa que ganha os seus 2 mil reais – está portanto dentro da classe média, segundo critérios do IBGE visto aqui – faz umas comprinhas de fim de semana no JK? E carrega feliz suas sacolas Gucci, Dior e afins?

Tenho quase certeza que não.

Me parece bastante incoerente empresas chegarem no Brasil para aproveitar a “maré” da classe média e se posicionarem no mercado de forma inacessível a maiora dela.

Assim como a Sephora, a Top Shop é um outro exemplo.

Fast-fashion inglesa super popular, que vende para as jovenzinhas sem muita grana para gastar, mas que querem modelinhos “descoladinhos”.

Li que tem vestidos a partir de 210 reais e por aí vai. Não acho um preço muito classe média em comparação as C&A’s e Renner’s da vida.

Apesar do “equívoco” de posicionamento – na minha opinião – acredito que as lojas serão um sucesso no Brasil. Mas para o mesmo público que já está acostumado há tempos a sair do país e fazer suas comprinhas no exterior e que podem pagar mais caro por esses mesmos produtos no Brasil. Que certamente não é a classe média.

Abs,

Natália Tiberio.

Saindo para ver o mundo, o Brasil descobre o Brasil.

Tive um problema com a internet na semana passada, por isso não consegui publicar nada nestes dias 😦

Bom, após ter lido este post “Levante a cabeça, massa-rainha” do blog da Vivian Whiteman que considero a pessoa que melhor escreve sobre moda no Brasil, minha primeira reação foi: é isso ai, assino embaixo! Mais tarde, depois de ter pensado mais sobre o assunto (sim os textos da Vivian tem este poder, coisa rara hoje em dia) resolvi escrever este post.

Não que eu tenha mudado totalmente de opinião, pois acredito que ficar se espelhando em criações e elites “criativas” que nada tem a ver com o estilo de vida da grande maioria dos brasileiros é se manter num eterno lenga lenga que nunca vai chegar a uma moda/estilo mais com cara de Brasil.

Porém, pensando na “massa rainha” me perguntei: será que o Brasil está preparado para o desapego consumista-inspiracional-americano-europeu? Será mesmo que é isso que as pessoas querem no momento? Eu acho que não.

O pais com a classe média em ascensão que já é mais da metade da população e com um pouquinho mais de dinheiro para gastar está começando a descobrir o mundo agora. Sem ser somente pela internet através dos blogs de streetstyle, revistas internacionais e afins.

Estão saindo pra conhecer os lugares que sempre sonharam, visitando as lojas e comprando marcas que sempre admiraram.  Estão efetivamente começando a consumir as coisas de fora porque só agora elas estão mais acessíveis. E acredito que esta vontade deve permanecer por mais um tempo.

Ouvi de uma professora uma vez que só quando a gente sai do nosso pais é que aprende a olhar para ele de uma forma nova. E acho que este é o caminho.

Depois da “massa rainha” ter ido ver o mundo é que ela vai parar e olhar  para si mesma e ver o que tem realmente a cara dela, que soluciona seus problemas e que acompanha o estilo de vida que ela leva.

E as marcas brasileiras vão ter que entender isso. Que o que eles ditam como a última moda não sei aonde, simplesmente não vai mais atender a essa massa que pega trem-ônibus-metro, anda pelas calçadas esburacadas e enfrenta todas as estações do ano num só dia, numa cidade como São Paulo.

Não dá pra sair de casa com aquele vestidinho esvoaçante com uma “tendência transparência” + saltos matadores e andar 2 horas de condução lotada minha gente!

Mas é uma questão de tempo e de descobertas. Primeiro do mundo. Depois de nós mesmos.

Pode ser que demore mais um pouquinho, mas certamente acontecerá.

Abs, Natália.

O “boom” do Brasil no verão italiano!

Estou passando um tempo na Itália, mais especificamente em Catania, na Sicília.

É verão por aqui, o calor é grande, 28/30 graus as 17hrs, só pra se ter uma ideia. Apesar de bem mais seco, o clima é bem parecido.

Não sei se é só no verão pela curiosidade que as pessoas tem pelo Brasil e pela associação que se faz com calor, praia, aquela coisa toda, mas o pais está super falado por aqui.

No mês passado a edição italiana da Marie Claire  trouxe um especial com chamada de capa sobre o “Boom Brasile”. A versão on line deste especial, você pode ver aqui.

Traz matérias com nomes do design, arquitetura, caras novas da musica, com destaque para as mulheres, editorial em Ipanema (que não podia faltar) e coisas um pouco menos óbvias como videozinhos com jovens empreendedores de Campinas e Cordislândia (!) em Minas Gerais.

A Havaianas está na vitrine de uma das principais lojas de departamento italianas, aqui em Catania em uma avenida bem movimentada e importante do comércio. Os anúncios, cheios de elementos brasileiros, são de pagina dupla nas revistas de moda e lifestyle.

Havaianas na vitrine em Catania

Havaianas nas revistas

Tem também a coleção especial que o Amir Slama desenvolveu para a marca de moda praia Yamamay. São 50 peças que foram inspiradas pelos “trio elétricos do Carnaval da Bahia” .

Estive um uma das lojas para ver a coleção. Os biquínis tem estampas bem coloridas e as calcinhas são um pouco menores do que as comuns europeias. Os maios são bem bonitos. Bem bonitos mesmo, com recortes  e drapes. Deu certo, porque em 2013 tem mais.

Ainda na Yamamay, encontrei uma coleção que leva o nome  de “Copacabana 16”, mas não consegui muitas informações, já que, nem no site da marca, existe nenhuma referência à ela.  O que consegui achar em blogs, fala sobre uma “coleção assinada por jovens estilistas brasileiros”, assim sem citar nomes.  Achei bem curioso, porque as peças estão na entrada da loja e levam inclusive etiquetas com bandeirinhas do Brasil.

Até as lojinhas de bairro estão na onda brasileira. A “Mariu” fica numa rua paralela a do meu apartamento e está com uma vitrine temática, com direito a Cristo Redentor!

A lojinha aqui do lado de casa

Acho que as pessoas e as empresas tem curiosidade sobre o Brasil mesmo, mas agora com um diferencial. De quem está subindo na escala da economia e atraindo os olhares para novos oportunidades que aqui – para eles – já não se encontra mais.

Abs, Natália.

Fontes e imagens: Site Amir Slama, Yamamay, marieclaire.it, vogue.it